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A fé que registra a escravidão: notas de pesquisa sobre batismo, resistência e emancipação
Última alteração: 11-12-2025
Resumo
Ao longo do século XIX, Porto Alegre consolidou-se como um importante entreposto comercial entre o interior da província do Rio Grande de São Pedro e seu único porto marítimo na vila do Rio Grande. A prosperidade gerada pela intensificação da atividade mercantil ampliava a ocupação urbana, gerava crescimento demográfico e oportunidades de enriquecimento e mobilidade social para diferentes grupos sociais. No entanto, esse crescimento estava sustentado na escravidão e em uma complexa hierarquia racial e social impostas a parcelas significativas da população do Império do Brasil. A exploração da mão de obra escravizada não estava apenas presente nas relações sociais e nas atividades econômicas da agropecuária, mas também no avanço urbano que estava ocorrendo em Porto Alegre. De tal modo, o presente trabalho tem como objetivo analisar os registros eclesiásticos de batismo da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário de Porto Alegre entre os anos de 1844 e 1845. Em um período pré-censitário, os registros eclesiásticos, além de sua função original de controle da aplicação dos sacramentos da Igreja Católica a seus fieis, também representavam uma forma de controle e hierarquização na sociedade escravista. A metodologia consiste na análise quantitativa e principalmente qualitativa dos assentos de batismo registrados na referida paróquia, cadastrados no banco de dados NACAOB em debate com a bibliografia referente sobre alforria e emancipação. Atenção especial foi direcionada para a análise específica de registros que fogem da regra “comum”, que era anotar detalhadamente a condição jurídica das crianças batizadas e dos seus pais quando não eram livres. Esses casos em específico servem de referência para o debate a respeito do papel da Igreja e dos rituais religiosos na manutenção da sociedade escravista. O trabalho também irá abordar como esses mesmos documentos, que contribuiam para a manutenção da escravidão, também foram utilizados como um simbolo de resistencia e emancipação. A figura de Luiz Gama, um advogado abolicionista, filho de uma mulher escravizada e de um pai livre, é um exemplo notável de como os registros civis e eclesiásticos podiam ser utilizados para contestar a condição juridica de escravidão, recorrendo a leis como a do Ventre Livre para vencer o sistema escravocrata. De tal modo, os registros de batismos servem como indícios de como vidas negras foram marcadas pela opressão e silenciamento em uma sociedade que se beneficiou da estrutura escravocrata e que ainda hoje apresenta continuidades na exclusão social de grande parte da população e em das maiores concentrações de renda na sociedade capitalista.
Palavras-chave
Porto Alegre; Liberdade; Registros Eclesiásticos.
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