Última alteração: 11-12-2025
Resumo
Esta pesquisa integra o recorte interestadual ao projeto mais amplo que investiga os ciclos de violência e pacificação no Rio Grande do Sul à luz de Norbert Elias, articulando transformações socioeconômicas e demográficas às variações nas taxas de homicídio. Diante da indisponibilidade, nesta etapa, de indicadores consolidados do Censo 2022, adotou-se um desenho em painel UF–ano (1991, 2000, 2010 e 2012–2021), mobilizando bases do IBGE (Censos Demográficos anteriores e PNAD) e DATASUS e preparando o georreferenciamento dos indicadores. Este trabalho foca três análises: (i) mapas por UF que mostram a distribuição temporal da letalidade; (ii) gráfico por grandes regiões que sintetiza diferenças persistentes; e (iii) regressão múltipla que testa a associação entre variáveis estruturais e homicídios. Os mapas evidenciam clivagens estáveis: patamares mais altos no Nordeste e Norte e mais baixos no Sul, com uma elevação generalizada no pós-2010, pico em 2015–2017 e arrefecimento recente em 2018–2021; a leitura temporal sugere deslocamentos relativos entre estados, mas mantém o contraste regional como traço dominante. O gráfico regional reforça esse desenho, destacando a distância entre NE/N e S, enquanto CO se aproxima do Sudeste em parte das janelas analisadas. Na inferência, o modelo de regressão multivariada apresenta ajuste consistente (R²≈0,44; R²aj≈0,41; F global significativo), com três resultados centrais: a desigualdade de renda associa-se positivamente às taxas de homicídio; a renda per capita e a frequência/assiduidade escolar apresentam associações negativas e estatisticamente significativas; dummies regionais mantêm o gradiente NE/N > SE (referência) e Sul abaixo do padrão, ao passo que dummies de período confirmam os patamares mais elevados após 2010, com pico em 2015–2017. Variáveis demográficas como razão de dependência, pobreza extrema e proporção de jovens perdem significância na presença de desigualdade, renda e escolaridade, sugerindo sobreposição de efeitos. Em chave eliasiana, os achados indicam que a pacificação depende do adensamento das interdependências sociais e do fortalecimento de mecanismos de autocontrole em torno do monopólio legítimo da força; quando a desigualdade se amplia e a integração escolar enfraquece, as “teias” rarefazem e a letalidade cresce. Implicações: combinar priorização territorial (estados/regiões com patamares mais altos), expansão da permanência escolar e redução de desigualdades, articuladas à coordenação institucional da segurança pública e a um monitoramento contínuo por indicadores espaciais e temporais.