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Literatura e testemunho: o papel da escrita na representação do bem-viver e da resistência indígena ao garimpo na Amazônia
Maria de Lourdes Dias Hoffelder, Cimara Valim de Melo

Última alteração: 11-12-2025

Resumo


O bem-viver, filosofia que demonstra respeito e equilíbrio na união humano-natureza, conecta-se à relação entre cosmovisão indígena e natureza; contudo, ao longo da história recente de violências sofridas pelos povos originários do Brasil, o garimpo tem se destacado como uma ameaça recorrente, documentado em narrativas testemunhais que acabam por se tornar arquivo memorialístico e veículo de resistência. Com base no exposto, este trabalho pretende abordar a experiência do bem-viver e expor o modo como o garimpo ilegal vem interferindo na vida dos povos-floresta dentro do território amazônico a partir de sua representação pela escrita testemunhal indígena contemporânea. A pesquisa, vinculada ao projeto “Literatura brasileira contemporânea e ecocrítica: percursos de resistência e retomada”, contou com a abordagem qualitativa, concentrando-se na investigação  bibliográfica e documental. Serviram como corpus de análise as produções A queda do céu e O espírito da floresta, do indígena Yanomami Davi Kopenawa. Como base teórico-crítica, foram estudadas as noções de bem-viver e escrita testemunhal, relacionando-as ao histórico de violações e abusos causados pelo garimpo ilegal. A escrita testemunhal de Davi Kopenawa revela os prejuízos do garimpo aos territórios e à ancestralidade indígena, visto que este traz inúmeras consequências socioambientais: por conta do garimpo, são soltos minérios prejudiciais à natureza, que vão parar em rios e afetam todo o ecossistema. Por outro lado, como resistência à degradação, o bem-viver evoca a persistência em buscar a harmonia entre o ser humano e a Mãe Terra. Kopenawa afirma que o homem branco — napëpë, na língua Yanomami —  não demonstra solidariedade com a natureza por não saber o quão necessária ela é: não escuta os ensinamentos dos indígenas para modificá-los. Mesmo assim, as comunidades originárias lutam não por aquilo que é deles, mas por aquilo que é de todos. Como resultados, observa-se que as narrativas testemunhais indígenas possuem um importante papel de memória e resistência,  trazendo à tona violações do homem branco para com a natureza e os povos-floresta. Por elas, conhecimentos ancestrais conduzem a movimentos de reconhecimento, reparação e retomada, necessários ao equilíbrio na união humano-natureza e, consequentemente, à preservação do  bem-viver.



Palavras-chave


Garimpo; Bem-viver; Indígena

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