Última alteração: 08-12-2025
Resumo
O difícil processo de redemocratização do Brasil a partir da segunda metade dos anos 1970 foi marcado pela reorganização de diferentes grupos sociais, que passaram a reivindicar abertamente suas pautas e contestar o Regime Militar, mobilizando seus valores para a sociedade. Entre eles, estão os movimentos estudantis, que encontraram nos jornais acadêmicos um dos meios de divulgação de suas ideias. Nosso trabalho tem como objetivo analisar o jornal estudantil “O Bisturi”, periódico organizado pelos estudantes da Faculdade de Medicina da UFRGS e que foi digitalizado pelo projeto “Digitalização de obras raras de Saúde: preservação e disseminação digital dos acervos do Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul” em parceria com o IFRS Campus Alvorada. Criado nos anos 1930, “O Bisturi” foi o principal meio de divulgação do movimento estudantil do curso, sendo que nosso estudo procurou analisar as edições existentes entre os anos de 1975 e 1985, oportunizando um olhar local sobre o processo de redemocratização e seu impacto nos estudantes. A pesquisa procedeu o levantamento de matérias das 14 edições do periódico no período, identificando quais os temas mais relevantes. Para isso, foi elaborada uma planilha de dados, procedendo o fichamento das quatro matérias em destaque (que contemplavam o maior número de páginas e posição de destaque na publicação) em cada número, identificando os temas recorrentes, nos quais em sua maioria eram dedicados à Política e à Saúde. A partir do levantamento, foi possível observar no campo político um engajamento voltado à mobilização estudantil, incluindo protestos contra o regime e a realização de congressos organizados por entidades estudantis para discutir pautas sociais e educacionais. Por sua vez, o tema Saúde é presente nas discussões sobre a formação acadêmica da área, como melhorias nos currículos e espaços de capacitação dos futuros médicos, assim como críticas à precariedade dos espaços dedicados à Saúde Pública. Com base nisso, destacou-se a identificação de valores sociais que contribuem para compreensão da formação médica e da posição do movimento estudantil diante das transformações do campo da Saúde e da Política no país. O estudo tem possibilitado observar como um grupo social, normalmente identificado com a elite, buscou se comprometer com a sociedade, a partir de uma formação adequada e crítica da Medicina, de forma a promover um atendimento eficiente a todos.