Última alteração: 10-12-2025
Resumo
Introdução: A pesquisa investigou as concepções de formação e de docência apresentadas por pedagogas e pedagogos que desenvolvem a docência no IFRS em cursos de licenciatura de áreas distintas da Pedagogia, a partir da questão: Que especificidades formativas provenientes das docências desenvolvidas por pedagogas e pedagogos em cursos de licenciatura distintos de sua área de formação inicial, constituem o futuro professor da Educação Básica? Com inspiração analítica em pesquisas inscritas no campo da formação de professores (Imbernón, 2011; Tardif, 2014; Nóvoa, 2022), investigam-se especificidades formativas que são consideradas função da(o) pedagoga(o) que desenvolve a docência em cursos de licenciatura, analisando como essas especificidades são percebidas por estes profissionais na constituição da docência do futuro professor de Educação Básica. Isso porque é na formação docente que se estabelece relações entre teorizações e prática docente, de modo a construir um conhecimento contingente, um “[...] repertório de acontecimentos e situações vividas, experienciadas, analisadas e partilhadas” (Nóvoa, 2022, p. 10). Tardif (2014) explica que a formação profissional perpassa diferentes saberes, desde os articulados às ciências da educação; os saberes disciplinares, próprios dos diversos campos do conhecimento; os saberes curriculares, provenientes dos programas escolares, até os saberes experienciais, baseados no trabalho cotidiano e no conhecimento do meio no qual está inserido.Ao teorizar sobre essas questões, direcionamos a pesquisa para a elaboração de um produto educacional intitulado: LAPEDOC - Laboratório com Pedagogos(as) Docentes em Cursos de Licenciaturas, forjado em falas extraídas do material analítico, as quais também inspiraram a escolha dos aportes teórico-metodológicos para subsidiá-lo.O produto educacional movimenta uma matriz formativa que perpassa os domínios da qualificação, socialização e subjetivação (Biesta, 2013), por meio da metodologia de um laboratório, que privilegia a coformação, o exercício de pensamento, a experimentação, a artesania e a formação como (de)formação (Fabris, 2024), o que tende a oportunizar o estabelecimento de um ethos de formação (Dal’Igna e Fabris, 2015). Pretende, ainda, ser um espaço para o compartilhamento das compreensões acerca da docência e da formação para os grupos que dele participarem, não apenas para que conheçam o que foi produzido ao longo da pesquisa, mas para que tenham a oportunidade de, em grupo, na partilha entre pares, analisar, refletir sobre o material empírico do qual participaram da elaboração e, com isso, recriar, reelaborar concepções e práticas docentes e, quem sabe, promover transformações em suas docências.Metodologia: Esta pesquisa, de natureza qualitativa, está vinculada ao Mestrado Profissional em Educação Básica, desenvolvido no Campus Farroupilha do IFRS. O universo da pesquisa compôs-se de pedagogas e pedagogos docentes em cursos de licenciatura do IFRS, não diretamente relacionados à área de Pedagogia. A escolha e delimitação dos sujeitos da pesquisa se deu em virtude da percepção da pesquisadora, pedagoga que exerce a docência no curso de Licenciatura em Matemática no IFRS, de que muitos estudantes demonstram resistência às disciplinas pedagógicas que são ministradas por pedagogos(as), valorizando muito mais as disciplinas da área específica. Assim, o desenvolvimento de uma pesquisa com seus pares, além de produzir conhecimento relacionado à formação de professores da EB, tem potencial para reverberar, também, na formação e na docência de outros(as) pedagogos(as) envolvidos e da própria pesquisadora, numa perspectiva inspirada na pesquisa (de)formação (Fabris, 2024) e na experiência coformativa. A investigação foi pensada sob princípios éticos que buscaram evitar qualquer tipo de constrangimento às pessoas que dela participaram, sendo o projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética do IFRS, sob o parecer nº 6.968.978. Com os direcionamentos conduzidos por esta ação, foi realizado o convite às(aos) pedagogas(os) docentes do IFRS para que participassem da pesquisa, respondendo a um questionário on-line no Google Forms, com questões abertas e fechadas sobre sua formação, experiências e docência nas licenciaturas do IFRS.A materialidade foi analisada a partir das teorizações indicadas na pesquisa e gerou um roteiro para o experimento formativo LAPEDOC, que propõe uma ação formativa para pedagogas(os) que desenvolvem a docência em cursos de licenciatura. Resultados e Discussão: A formação continuada é requisito para a docência. Essa formação não tem a ver com palestras ou encontros nos quais se ouve alguém falar sobre um tema, mas, principalmente, em momentos de construção coletiva em que somos sujeitos ativos da formação, interagindo, dialogando, trocando experiências e conhecimentos (Professora 3, 2024). Na pesquisa, o grupo de pedagogos(as) destacou o desejo de vivenciar uma formação que privilegiasse a construção e a cooperação entre os pares. Com esse direcionamento, construímos não uma formação para os(as) pedagogos(as), mas sim uma formação COM os(as) pedagogos(as), que intitulamos experimento formativo LAPEDOC (Apêndice A). A inspiração para a criação desse experimento formativo, configurado como um laboratório, provém das pesquisas de Fabris (2024) que, juntamente com outros(as) pesquisadores(as), concebeu o Laboratório de Docências Contemporâneas (LABDOC): espaço-tempo (de)formação. O LABDOC, explica a pesquisadora é[...] um espaço coformativo para exercitar o pensamento, a criação e o saber-fazer docente, em processos intensos de crítica, de exposição, de exercício de pensamento, de argumentação e de escrita que produzem uma transformação de si e do outro. [...] Sempre é mais confortável e engajador, contar com a amizade intelectual dos pares para exercer o rigor acadêmico (Fabris, 2024, p. 35). Agregando estes aspectos teórico-metodológicos do LABDOC ao experimento formativo LAPEDOC, proporcionamos aos(às) pedagogos(as) um espaço para pensar, para perceber aspectos do saber-fazer na docência já automatizados e, com isso, criar outras possibilidades de conduzir a docência, com efetiva presença, atenção plena e ação experimental (Fabris, 2024). Isso porque a escolha do conceito de laboratório tem o compromisso de “[...] inscrevê-lo como um espaço científico, onde os professores podem realizar seus experimentos, trazer suas ações, concepções pedagógicas e suas docências”, e compõe o que denominamos “[...] caixa de ferramentas para criar e inovar em Educação” (Fabris, 2024, p. 39). Acreditamos, desse modo, que o experimento formativo, alicerçado nessas bases teórico-metodológicas, privilegia, especialmente, a experiência coformativa (que ocorre no coletivo, através da partilha, do diálogo, do acolhimento e da colaboração), o exercício de pensamento (pela análise crítica das experiências docentes), a experimentação e a artesania (como espaço de criação), bem como a formação como (de)formação (antevendo e promovendo uma possibilidade de transformação). Isso, em nossa compreensão, contribui tanto para a (de)formação de cada participante do laboratório quanto para o cultivo de uma amizade intelectual (Fabris, 2024) entre o grupo. Além disso, situamos o LAPEDOC nas teorizações propostas por Biesta (2012), que apresenta os domínios da qualificação, da socialização e subjetivação como dimensões da educação e, como em Paim (2025), nos valemos de uma matriz formativa que interconecta os três domínios, com ênfase no domínio da subjetivação, no processo de constituição docente. Isso porque, em nossa compreensão, um processo de formação docente integra as funções de qualificação, de socialização e de subjetivação, o que acreditamos ser possível com o roteiro do experimento formativo disponibilizado. O experimento formativo objetiva proporcionar um espaço coformativo e colaborativo que, considerando as especificidades e as necessidades do grupo participante, identificadas pela pesquisa prévia, potencialize estudos, diálogo, compartilhamento de experiências e o aprimoramento das docências. Com carga horária de 20h, sendo 10h de encontros síncronos e 10h de atividades assíncronas, o roteiro pode ser desenvolvido de diferentes modos, como, por exemplo, por meio de Curso de Extensão, ou inserido em reuniões pedagógicas nas escolas. A preparação para o experimento prevê o envio de um formulário on-line, elaborado com questões estruturadas sobre formação e docências em cursos de licenciatura, que tem por objetivo produzir dados que caracterizem o grupo de participantes do experimento formativo LAPEDOC, bem como viabilizem a partilha de concepções, percepções e práticas docentes, que servirão de base para a construção dos encontros formativos, a partir da contribuição dos(as) participantes. Após a análise das respostas dos participantes, selecionam-se gráficos e depoimentos que melhor potencializem as ideias visibilizadas, de modo a fomentar discussões relacionadas às temáticas a serem desenvolvidas nos encontros. Considerando os recortes extraídos do material analítico, selecionam-se textos que fundamentam as temáticas e propõe-se momentos de estudos, partilhas e reflexões, que fazem do LAPEDOC, um experimento de formação COM Pedagogos(as). Considerações finais: O experimento formativo LAPEDOC tem a pretensão de contribuir na formação de professores que atuam na formação de professores da Educação Básica. Tomamos como base a ideia de coformação, o exercício de pensamento, a experimentação, a artesania e a formação como (de)formação, buscando promover a qualificação, a socialização e a subjetivação, entendidas como dimensões constitutivas da formação. Com isso, marcamos nosso desejo de “[...] construir uma formação voltada para o cuidado de si mesmo e do outro, possibilitando novas formas de produção de si e de relações com os outros – o que estamos chamando de ‘ethos de formação’” (Dal’Igna e Fabris, 2015, p. 81). Desejamos que o produto educacional construído possa ser replicado, transformado, adaptado e que inspire outros experimentos formativos e colaborativos que privilegiem as bases teórico-metodológicas apresentadas, as quais acreditamos que tem potencial para contribuir significativamente na formação de professores desde tempo. Agradecemos o apoio do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), que possibilitou a realização desta pesquisa.