Última alteração: 10-12-2025
Resumo
Palavras-chave: Espaço; Sonoridade; Polifonia. Introdução Memorial de Aires, último romance de Machado de Assis, publicado em 1908, ano da morte do autor, apresenta-se em formato de diário, mas ultrapassa o relato da vida do diplomata Aires para narrar também a trajetória do casal Aguiar, de Tristão e Fidelia. Essa alternância cria ambiguidade quanto ao foco narrativo, que ora é autodiegético, ora heterodiegético. Como afirma Saraiva (2009, p. 146), o enunciador “ao tentar apreender a verdade sob as aparências, se conduz simultaneamente como protagonista e testemunha dos episódios”. A narrativa, iniciada em 9 de janeiro de 1888 e finalizada em 30 de agosto de 1889, acompanha acontecimentos de relevância histórica no Brasil, como a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, além da primeira Constituição republicana. Esse recorte contextualiza o romance como testemunho literário de transformações políticas e sociais, permitindo reflexões sobre a história factual brasileira do século XIX. Os questionamentos suscitados pelo texto relacionam-se ao modo narrativo, à espacialidade e ao discurso do narrador. Em seus últimos romances, sobretudo em Esaú e Jacó e Memorial de Aires, Machado de Assis mostra preocupação em refletir sobre a sociedade fluminense de sua época, utilizando personagens e cenários sócio-históricos que ampliam a crítica presente no relato. O espaço, explorado cartograficamente e descrito em detalhes, ganha dimensão crítica e simbólica. Conforme Regina Zilberman (2012), o perambular de Aires evidencia cenários que se sobrecarregam de posicionamento moral, cabendo ao leitor apreender seus sentidos. Bauman (2009, p. 40) acrescenta que “a presença num espaço público é anônima, e os que nele se encontram são estranhos uns aos outros”. Nesse sentido, a genialidade machadiana reside em utilizar o anonimato do Conselheiro para registrar e criticar a sociedade observada. Para Lins (1976, p. 77), a ambientação constitui “o conjunto de processos conhecidos ou possíveis, destinados a provocar, na narrativa, a noção de um determinado ambiente”, demandando experiência de mundo e conhecimento da arte narrativa. A análise do romance envolve também a dimensão sonora. O narrador revela não apenas o que vê, mas o que ouve, promovendo o que Gaudreault (2009, p. 172) denomina de auricularização: “a elaboração de um ‘ponto de vista’ sonoro, ou melhor, auricular, não representa nenhuma surpresa. Isso se realiza por meio do tratamento dos ruídos, das palavras, da música, ou seja, de tudo que é audível”. Para Sant’anna (2020, p. 107), autores como Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa exploram significativamente o aspecto auditivo-sonoro, em sintonia com uma cultura oral e musical. Assim, o problema de pesquisa consiste em investigar de que modo espaço e som contribuem para a estética e a crítica social em Memorial de Aires. O objetivo geral é analisar a construção desses elementos na narrativa, destacando o olhar e a escuta como operadores de sentido. Metodologia A pesquisa é de natureza qualitativa e bibliográfica. Fundamenta-se em autores que tratam do espaço e da sonoridade na narrativa, como Bakhtin (2008), Saraiva (2009), Zilberman (2012), Lins (1976), Bauman (2009), Gaudreault (2009) e Sant’Anna (2018, 2020). O procedimento metodológico incluiu leituras sucessivas do romance e o mapeamento de sons e espaços capítulo a capítulo. Além disso, buscou-se dialogar com críticas literárias e propor, como desdobramento artístico, uma textura sonora que recriasse a experiência estética do romance. Resultados O levantamento textual revelou que a narrativa apresenta forte construção espacial do Rio de Janeiro do fim do século XIX, que não se limita à descrição física, mas inclui significações simbólicas. Identificaram-se elementos sonoros recorrentes: a barca, mencionada já na “Advertência”, o pregão de vassouras, os transportes (trem, bonde, cavalos, coupés), os sons de animais em parques, além de vozes e conversas que compõem o cotidiano urbano. Outro aspecto relevante é a presença de referências culturais e artísticas de diferentes países: Beethoven, Heine, Dumas, Figaro, Shelley, Dante. Essas vozes plurais aproximam o texto de uma “torre de Babel” literária, reforçando sua dimensão intertextual e sonora. Também emergiu a constatação de que o diário, embora gênero pessoal e privado, abre espaço para múltiplas vozes sociais, revelando dialogismo. Discussão A comparação entre ocularização e auricularização, proposta por Gaudreault (2009), permite compreender como o romance explora tanto o olhar quanto a escuta. Aires funciona como flâneur, registrando visual e auditivamente a sociedade carioca. Esse procedimento aproxima a narrativa do conceito bakhtiniano de polifonia: “não é a multiplicidade de caracteres e destinos que, em um mundo objetivo uni, à luz da consciência una do autor, se desenvolve nos romances; é precisamente a multiplicidade de consciências equipolentes e seus mundos que aqui se combinam numa unidade de acontecimento, mantendo a sua imiscibilidade” (Bakhtin, 2008, p. 5). As sonoridades urbanas – pregões, barcas, passos, rodas – ativam no leitor o que Sant’Anna (2020, p. 95) denomina “memórias de ouvido”: vivências sonoras que se tornam mapas afetivos e culturais. Dessa forma, Machado constrói uma narrativa em que espaço e som são operadores de crítica social, remetendo ao fim da escravização, às transformações políticas e às tensões da elite fluminense. No campo artístico, a pesquisa delineou possibilidades de recriação sonora do romance: início com a barca e o pregão, acréscimo de passos, trotes, conversas, sons de correntes se quebrando em referência à Abolição, batuques afro-brasileiros, leituras multilinguísticas das obras citadas e ecos das falas de Aires, como “papel, amigo papel!”. Essas propostas sonoras buscam traduzir a polifonia do texto, que, segundo Sant’Anna (2018, p. 163), aproxima-se do conceito de polifonia ao equalizar vozes verbais e musicais. Considerações finais A análise mostrou que Memorial de Aires não representa a cidade do Rio de Janeiro apenas pela descrição espacial, mas pela experiência vivida e ouvida das personagens. O romance mobiliza a visão e a audição do leitor, tornando o diário um espaço polifônico que ultrapassa a intimidade individual para registrar o coletivo. Espaço e som atuam como dimensões complementares que enriquecem a crítica machadiana, revelando a transição histórica e a pluralidade de vozes sociais. A proposta de recriar a textura sonora da obra reafirma sua atualidade e potencial estético, abrindo caminho para futuros desdobramentos acadêmicos e artísticos. Referências ASSIS, Machado de. Memorial de Aires. Editora Martin Claret: São Paulo, 2004. BAKHTIN, M. O romance polifônico de Dostoievski e seu enfoque na crítica literária. In: BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008. BAUMAN, Zygmunt. Confiança e medo na cidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. GAUDREAULT, André; Jost, François. A narrativa cinematográfica. Brasília: Editora da UnB, 2009. LINS, Osman. Lima Barreto e o Espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976. SANT'ANNA, Denise Blanco; SARAIVA, Juracy Assmann; FREITAS, Ernani César. O campo discursivo da textura sonora: diálogos e polifonias. OUVIROUVER (ONLINE), v. 14, p. 154-166, 2018. SANT’ANNA, Denise Blanco. Sonoridades híbridas: da escuta à experiência estética. 2020. Tese (Doutorado em Processos e Manifestações Culturais) - Disponível em: https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=9307256 Acesso em: 23 de jul. 2024. SARAIVA, Juracy Assmann. O circuito de memórias: narrativas autobiográficas romanescas de Machado de Assis. São Paulo: EDUSP/Nankin Editorial, 2009. ZILBERMAN, Regina. Brás Cubas Autor, Machado de Assis Leitor. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2012.