Portal de Eventos do IFRS, 10º SALÃO DE PESQUISA, EXTENSÃO E ENSINO DO IFRS

Tamanho da fonte: 
Educação Profissional e Tecnológica (EPT): o caminho para a formação da consciência política do futuro tradutor-intérprete de Libras-Português (Tilsp) egresso do IFRS Campus Alvorada
Tainá Nunes da Silva, Andrea Poletto Sonza

Última alteração: 10-12-2025

Resumo


A regulamentação da profissão de tradutor, intérprete e guia-intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) veio através da Lei n° 12.319 (Brasil, 2010). Considera-se, conforme o artigo 1°, parágrafos “I - tradutor e intérprete: o profissional que traduz e interpreta de uma língua de sinais para outra língua de sinais ou para língua oral, ou vice-versa, em quaisquer modalidades que se apresentem” (Brasil, 2023, p. 1) e “II - guia-intérprete: o profissional que domina, no mínimo, uma das formas de comunicação utilizadas pelas pessoas surdocegas” (ibidem). A história do tradutor-intérprete de Libras se perde no tempo. No Brasil, de acordo com Laguna (2015), os primeiros documentos referem-se aos repetidores de classe durante o Brasil Império. Segundo a autora, pode-se dizer que esses repetidores de classe antecederam o Tilsp no exercício profissional (ibidem). Até a década de 1990, os indivíduos que mediavam a comunicação entre pessoas surdas sinalizantes e ouvintes eram conhecidos como intérpretes empíricos (Laguna, 2015). Conforme a autora “empíricos porque estes sujeitos tiveram iniciação nos espaços empíricos, como a família, em espaços religiosos e nos movimentos surdos” (ibidem). Ainda, “essa mudança do intérprete empírico para o intérprete profissional foi acontecendo aos poucos, a partir das necessidades da comunidade surda, expandindo-se para a sociedade em geral, legitimando e regulamentando esse profissional” (Laguna, 2015, p. 20). Foi nesse cenário, após a oficialização da profissão, que os primeiros cursos de formação de tradutores-intérpretes de Libras ofertados pelo IFRS ocorreram no município de Alvorada, entre os anos de 2013 e 2014, por meio do Programa Nacional Mulheres Mil e do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), além de cursos de Formação Inicial e Continuada (FIC) em Libras Básico. Em 2015, “ocorreu a abertura da primeira turma de curso técnico do Campus Alvorada, de Tradução e Interpretação de Libras (TTILS) na forma subsequente, com ingresso através de processo seletivo complementar” (IFRS-Alvorada, 2016, p. 9). O TTILS do IFRS Campus Alvorada se consolidou ao longo desses anos, formando profissionais aptos a atuar nas mais diversas áreas, públicas e privadas, garantindo a acessibilidade linguística às pessoas surdas sinalizantes. A profissão do tradutor e intérprete de Língua Brasileira de Sinais-Português nasce dentro da conjuntura política e econômica neoliberal e é um reflexo desse modelo dominante de precarização do trabalho e de exploração do trabalhador, principalmente após a reforma trabalhista, que acentuou as desigualdades sociais. O Tilsp atua, na maioria das vezes, em trabalhos mal remunerados e frequentemente terceirizados. Em razão disso, este trabalho se originou a partir de uma inquietação sobre o currículo de formação técnica dos estudantes do curso Técnico em Tradução e Interpretação de Libras-Português (TTILS) que tem a prática profissional como eixo principal de ensino. Considerando as especificidades da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) ofertada pelos Institutos Federais, esta pesquisa tem como objetivo investigar de que maneira a formação proporcionada no Técnico de Tradução e Interpretação de Libras do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) Campus Alvorada contribuiu para a formação da consciência política dos egressos do curso. A fim de contribuir com a formação dos estudantes do TTILS na perspectiva da formação humana integral, a pesquisa caracterizou-se como qualitativa e de caráter explicativo, com procedimentos bibliográfico e documental. Adotamos a análise de conteúdo temática, embora existam outros tipos, porque "além de ser a mais simples, é considerada apropriada para as investigações qualitativas”, que se desenvolve em três etapas: organização, exploração do material e tratamento dos resultados (Gerhardt; Ramos; Riquinho; Santos, 2009, p. 84). Como instrumento de coleta de dados foi utilizado o formulário semiestruturado, que contou com a participação de 11 egressos do curso. Utilizamos a identificação T1 a T11 para preservar suas identidades. E, por fim, empregamos a pesquisa participante que nos proporcionou o conhecimento da prática profissional destes trabalhadores. A revisão de literatura possibilitou o conhecimento acerca das publicações existentes sobre o Tilsp e é possível inferir que existe carência de pesquisas sobre a formação política destes profissionais, enquanto classe trabalhadora, na era da mundialização do capital. Outra observação importante é que, durante a pesquisa, percebemos que a maioria dos trabalhos está assentada no pós-estruturalismo, tendo como objeto de pesquisa a linguagem, o sujeito e sua subjetividade. É imperioso destacar que a nossa pesquisa tem como enfoque teórico o materialismo histórico-dialético e a perspectiva que se busca é a de classe trabalhadora. Leite (2017, p. 847) afirma que “muitas teorias pós-modernas hegemonizam o ideário e o imaginário coletivo da sociedade capitalista, esboçam reflexões superficiais sobre o capitalismo e consideram o materialismo histórico-dialético ultrapassado”, buscando “explicar e resolver os problemas sociais por meio da elaboração de novas narrativas abstratas que negam a luta de classes inerente à sociedade capitalista” (ibidem, p. 848). Sabemos a importância que os Institutos Federais têm na formação profissional, principalmente em cidades periféricas e marginalizadas como é o caso de Alvorada. A localidade, qualidade e a gratuidade dos cursos são elementos essenciais para a escolha de jovens e adultos. Frigotto (2024) refere que a Educação Profissional no Brasil, desde a sua origem, “sempre esteve ligada a um recorte de classe bem definido”. Conforme Pacheco (2012, p. 99), “em se tratando da formação profissional de nível médio, assume-se que os conhecimentos específicos de uma área profissional não são suficientes para proporcionar a compreensão global da realidade”. Esse entendimento parte dos pressupostos defendidos pelos Institutos Federais onde parte e totalidade são interdependentes, por isso “deve-se contemplar também a formação geral” (ibidem) em todos os níveis educacionais, inclusive nos técnicos subsequentes. Castro; Plácido; Medeiros (2023, p. 16) ao analisarem a geopolítica e a geografia política da Educação Tecnológica no Brasil, referem que “a proposta pedagógica ventilada nos IFs busca articular trabalho, ciência e cultura, na perspectiva da emancipação humana”. Além disso, a EPT “[...] busca uma formação profissional mais abrangente e plural, com menos ênfase na formação para o trabalho mecânico, e mais na compreensão das dimensões social e política do trabalho”. Ou seja, isso só é possível quando se tem a práxis como princípio orientador do processo de ensino-aprendizagem. A práxis está diretamente relacionada à formação humana integral, que tem como proposta superar o ser humano cindido, “[...] dividido historicamente pela divisão social do trabalho entre a ação de executar e a de pensar, dirigir ou planejar” (Ramos, 2014, p. 86). A formação humana integral tem como objetivo “garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política” (ibidem). Paludo (2019, p. 78) destaca a importância da educação pública para formação de uma consciência política, porque, segundo a autora, é possível “em seu interior, realizar o exercício da contra-hegemonia e experiências que, teorizadas, podem constituir acúmulos coletivos [...] voltada aos interesses dos trabalhadores, em nosso tempo histórico”. Segundo Pacheco (2020, p. 20), “os IFs são a mais ousada e criativa política educacional já experimentada em nosso país. É o que se aproxima daquilo que Freire chama de ‘Inédito Viável’ e está “comprometida com os trabalhadores, os excluídos e com um Projeto de Nação Soberana, Democrática e Inclusiva, rompendo com o elitismo das políticas historicamente implementadas no país” (ibidem). Por isso, reforçamos a importância do currículo integrado para a formação política crítica dos estudantes-trabalhadores, estimulando a reflexão sobre a realidade social, política e macroeconômica alinhada às especificidades da formação técnica. A partir dos resultados obtidos, propomos como Produto Educacional (PE) a sequência didática do Círculo de Cultura freireano a fim de garantir uma formação técnica de nível médio comprometida com a formação humana integral dos estudantes para a atuação crítica destes futuros profissionais nos espaços formais no mundo do trabalho. O PE proporcionará aos educandos uma reflexão sobre os princípios orientadores da EPT e a importância da formação da consciência política para o seu processo formativo laboral na era da mundialização do capital, alinhado às especificidades da profissão. Aos docentes, é um suporte educacional possível de ser reproduzido em sala de aula. O Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Alvorada, única instituição pública, gratuita e de qualidade no estado a ofertar o curso Técnico Subsequente em Tradução e Interpretação de Libras, configura-se como espaço estratégico para a formação crítica dos estudantes-trabalhadores do TTILS. Com isto, defendemos a ideia de que a Educação Profissional e Tecnológica é o caminho para a formação da consciência política do futuro profissional Tilsp ao possibilitar uma formação integral, contemplando tanto as especificidades da formação quanto a compreensão sobre o mundo do trabalho, a fim de formar sujeitos emancipados e que poderão ser agentes políticos de transformação social.

Palavras-chave


Educação Profissional e Tecnológica; Tradutor-Intérprete de Libras-Português; Currículo Integrado.

Texto completo: PDF