Última alteração: 08-11-2023
Resumo
A sustentabilidade em cadeias de suprimentos vem se tornando um tópico de interesse para acadêmicos, executivos, acionistas e gestores. No entanto, os aspectos sociais ainda são pouco representados na literatura e constituem oportunidades significativas de pesquisa. Apesar do reconhecimento de quais são as práticas relacionadas à dimensão social da sustentabilidade (por exemplo, práticas relacionadas a questões de ética, direitos humanos, saúde e segurança no trabalho), as questões sociais ainda são um desafio nas empresas fornecedoras e terceirizadas. Nesse estudo, argumenta-se que as condições de trabalho são influenciadas pelos contratos das cadeias de suprimentos. Por exemplo, em 2021, uma trabalhadora de uma fábrica terceirizada de calçados foi impedida de usar o banheiro durante o horário de trabalho porque o ritmo de produção não poderia ser interrompido. O que define tal ritmo é o contrato firmado entre duas empresas, definindo a quantidade de calçados produzidos por dia. Dado que a empresa focal tem poder e influência na cadeia de suprimentos, espera-se que essa empresa seja responsabilizada pelos impactos na cadeia de suprimentos incluindo as condições de trabalho de empresas terceirizadas e fornecedoras. Esta pesquisa tem como objetivo analisar a influência dos contratos da cadeia de suprimentos nas condições de trabalho de trabalhadoras de empresas terceirizadas e fornecedoras. Para tanto, utilizou-se uma abordagem qualitativa por meio de coleta de dados secundários e entrevistas online com trabalhadoras de empresas terceirizadas de cadeias de suprimentos calçadistas localizadas no Sul do Brasil, particularmente em regiões que abrigam polos calçadistas. Justifica-se o estudo na indústria calçadista em virtude da sua contribuição para o desenvolvimento social e econômico de tais regiões. Resultados indicam três categorias que mostram a influência dos contratos das cadeias de suprimentos nas condições de trabalho: contexto econômico e social da região; perfil de trabalhadoras; e ambiente de trabalho. As fábricas de calçados são uma oportunidade de primeiro emprego para a maioria das mulheres em polos calçadistas. O perfil de trabalhadoras do calçado inclui trabalhadoras pragmáticas, trabalhadoras por necessidade e trabalhadoras por oportunidade. Além disso, existem relatos de más condições de trabalho (assédio, humilhação, abuso de poder, autoridade, preconceito, pressão para produção etc.), que parecem representar o real ambiente de trabalho nessas fábricas de calçados. Trabalhadoras do calçado são vistas simplesmente como engrenagem de máquina. Tais categorias reforçam as péssimas condições de trabalho, que parece ser um efeito dos contratos da cadeia de suprimentos. Para além de condição de trabalho decente, é preciso incluir na discussão as condições de trabalho justas. Portanto, a pesquisa fornece insights para as empresas (re)pensarem seus contratos, pois justas condições de trabalho devem fazer parte das práticas de sustentabilidade nas cadeias de suprimentos. Espera-se que as empresas sejam responsabilizadas pelos impactos, incluindo as condições de trabalho de empresas terceirizadas e fornecedoras. A melhoria das condições de trabalho nas empresas fornecedoras e terceirizadas deve fazer parte das práticas de sustentabilidade nas cadeias de suprimentos calçadistas.