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Os róticos produzidos em Feliz (RS)
Eduarda Gabrielli Corrêa Boz, Laura Helena Hahn Nonnenmacher

Última alteração: 22-12-2023

Resumo


Este trabalho apresenta resultados de um estudo variacionista realizado no município de Feliz, cidade colonizada por imigrantes alemães, situada no Vale do Caí, por meio do projeto “Fenômenos linguísticos variáveis no português falado em Feliz (RS) e cidades da região.” O objetivo é investigar a variação na produção de /r/ na fala dos moradores, nas posições onset silábico e coda em palavras do português em contato com a variedade do alemão. De acordo com Altenhofen et al. (2018), há cerca de 370 línguas ainda vivas no Brasil, sendo 14 variedades de alemão, e o Hunsrückish é uma das mais difundidas. A imigração alemã iniciou no ano de 1824 e foi bastante favorável, tanto para o Brasil quanto para os países europeus, tendo em vista que estavam passando por um processo de industriaização e por terem sofrido com as guerras napoleônicas. Ademais, o Brasil via a imigração europeia como uma oportunidade de tornar a população mais branca, tendo em vista que era predominantemente mestiça e negra, além de povoar a região do Sul do Brasil, a fim de evitar invasões dos países vizinhos. O contato do Português Brasileiro com o Hunsrückisch apresenta marcas na  fala de usuários dessa variedade e de seus descendentes. Conforme Schneider (2008), as trocas ocorrem nas consoantes oclusivas [b, d, g] ↔ [p, t k] e nas fricativas [ʃ] ↔ [ʒ], e há a variação que ocorre entre “r-forte” e “r-fraco” em onset silábico, uma das posições a serem analisadas no presente trabalho. O município de Feliz foi escolhido para a pesquisa por conta da sua história de fundação, que iniciou em 1846 com a chegada das primeiras famílias alemãs. Em 1853, já habitavam no município cerca de 90 famílias, algumas vindas de outras colônias, como a família Ruschel; de Estância Velha, como as famílias Simon, Berwanger, Nedel, Dill, Henz, algumas advindas de de São José do Hortêncio. Algumas famílias vieram diretamente da Alemanha, da região do Reno, como a família Flach, Rauber, Friedrich, Kaspary, Vetter, Scherer, Klein, Noll e Spohr. Atualmente ainda é preservada a cultura desses imigrantes, como a realização de festas típicas, como o Festival Nacional do  Chopp, festa inspirada na Oktoberfest de Munique, a arquitetura das casas em estilo Enxaimel e a língua, pois o Hunsrückisch ainda é utilizado por algumas pessoas em diferentes ambientes. Não existem muitos trabalhos que analisem a variação da produção dos róticos na região do Vale do Caí, por esse motivo, este trabalho é importante para documentar a fala da comunidade e servir como base para demais pesquisas no município e região, pois as entrevistas realizadas serão armazenadas em um banco de dados para possíveis estudos posteriores. Para a construção deste trabalho, fizemos pesquisas bibliográficas sobre variação linguística, tendo como base os estudos de Labov (2008 [1972]), em que a partir da observação da fala dos moradores de Martha’s Vineyard foi identificada uma a centralização vocálica, /ay/ e /aw/, e a partir disso percebeu-se que essa marca na fala estava relacionada à resistência na preservação da identidade desses moradores. Labov (2008 [1972]) também analisou a fala na cidade de Nova York, em que foi observada a estratificação social da pronúncia de /r/ em diferentes lojas de departamento, levando em consideração o grau de prestígio. Para isso, selecionou a Saks, que possuía um status superior; Macy’s, com status mediano; e Kleins, com status inferior. Na pesquisa, foi levado em consideração os anúncios de preços de cada loja, a estrutura, o salário dos funcionários e o prestígio social da loja, juntamente com seus vendedores. Labov (2008 [1972]) identificou que na loja Saks havia mais a produção de /r/ e que seus funcionários eram mais seguros no aspecto linguístico. A partir disso foi possível concluir que o grupo com maior prestígio exibia a alternância estilística mais extrema de /r/. No Brasil, Battisti (2014) analisa a variação linguística de línguas em contato e aponta que a variação não ocorre de forma eventual, mas está relacionada com as tendências de usos e com as características sociais dos falantes, como idade, gênero e grau de escolaridade. A investigação da variação da produção dos róticos no Sul do Brasil iniciou com Monaretto (1992), que analisou variáveis linguísticas como a posição da sílaba; contexto precedente; contexto seguinte; vazio; acento; e velocidade da fala, e variáveis extralinguísticas, como sexo/gênero; faixa etária; escolaridade; e grupo geográfico. Em sua pesquisa, porém, não houve uma análise em comunidades bilíngues. A revisão bibliográfica do presente estudo também traz análises sobre a variação de róticos em comunidades bilíngues de Português e Hunsrückisch, como de Schneider (2008), que estudou como a variedade do alemão influencia na fala e na escrita do português dos estudantes do ensino fundamental I no município de Tupandi. Steffen (2013) analisou o /r/ na fala de informantes de cidades de imigração alemã, como Ivoti, Dois Irmãos, Harmonia, Forquetinha, Lajeado e Panambi. Também foi analisado o trabalho de Fritsch e Pereira (2018), que investigaram o preconceito linguístico no uso do r-fraco em contextos de r-forte no município de Feliz. Além do trabalho de Prodanov e Martins (2021), que analisou a fala de mulheres de diferentes idades e grau de escolaridade no município de Picada Café. Este trabalho está em andamento e, para a coleta de dados, serão realizadas entrevistas semiestruturadas com moradores descendentes de imigrantes alemães, nativos ou que residam no município desde a fase escolar. Os informantes serão divididos em gênero (feminino e masculino), escolaridade (ensino fundamental, ensino médio e ensino superior), zona rural e zona urbana, e faixa etária (18 anos a 29 anos, 30 anos a 49 anos e 50 anos ou mais). Conforme a revisão bibliográfica realizada, partimos das seguintes hipóteses a) haverá maior ocorrência de r-fraco, em contextos de r-fraco na fala dos homens, b) moradores da zona rural utilizarão com mais frequência o r-tepe, c) quanto maior o nível escolar, menor é o uso de r-fraco em contexto de r-forte.

 

Palavras-chave: Variação linguística; Hunsrückisch; variação na produção de /r/.

 

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Palavras-chave


Variação linguística; Hunsrückisch; variação na produção de /r/.

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