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O realismo capitalista no encontro entre música ambiente e espaços liminares
Paulo Henrique Costa Albani, Marcelo Bergamin Conter

Última alteração: 21-11-2022

Resumo


Este trabalho deriva do projeto de pesquisa "Semioses afetivas da música ambiente contemporânea", que pretende compreender novos hábitos de escuta desenvolvidos na plataforma YouTube, utilizando a música como ambientação para atividades cotidianas como trabalhar e estudar. Nosso recorte para a presente análise são playlists que contém imagens estáticas de espaços liminais acompanhados de música ambiente.

Um espaço liminal é aquele que estabelece uma transição entre espaços onde se quer ir ou voltar, como corredores de hotéis, saguões, estacionamentos, autoestradas, e tendem a ser parecidos em qualquer lugar do mundo. No YouTube, imagens naturalistas geradas por CGI de espaços liminares, esvaziados de pessoas, se encontram acompanhando playlists cuja trilha sonora apresenta composições musicais instrumentais com pouca variação melódica e harmônica, prolongação de notas ou acordes e sons graves difusos, formando o ambiente sonoro. Nossa hipótese é que tal relação entre espaços liminares,  música ambiente e escuta distraída enquanto se trabalha ou estuda expressa os efeitos nefastos do capitalismo tardio nos indivíduos (crises dissociativas, distúrbios de sono, ansiedade) quanto no coletivo (pressão por desempenho, sobrecarga e precarização do trabalho) e no planeta (consolidação do antropoceno). Na relação entre som e imagem, imagina-se um futuro distópico em que a humanidade desaparece (ausência de corpos e vozes) enquanto o capitalismo prevalece (presença de logomarcas, redes de fast food, postos de gasolina).

Teoricamente, nos apoiamos na teoria dos afetos de Espinoza, no materialismo histórico de Marx, na filosofia da diferença de Deleuze e Guattari e no realismo capitalista de Fisher. Metodologicamente, observamos o fenômeno por meio da semiótica crítica, teoria que compreende que os signos são resultado de uma semiose a qual se convém analisar seus processos tradutórios e efeitos políticos.

Como primeiro movimento de análise, observamos a relação entre as sonoridades, os espaços liminares e os comentários dos usuários. As correspondências aí estabelecidas desenvolvem uma máquina semiótica que vai expressando as contradições do realismo capitalista: encontramos usuários que dizem se sentirem mais capazes de encarar o trabalho rodando estas músicas de fundo, mesmo soando "apocalípticas" e "melancólicas"; há quem defenda que a madrugada é o melhor momento do dia para trabalhar, devido à ansiedade, introversão etc.; ou ainda, aqueles que encontram "paz" diante de imagens desprovidas de pessoas e sons desprovidos de vocais.

Como considerações parciais, nos parece que a relação entre espaços liminares e música ambiente reconfigura a noção de escapismo. É como se os usuários tentassem reverter a atmosfera de pressão por desempenho que lhes entorna, mas sem sair da zona que lhes oprime, visto que as obras analisadas expressam exatamente o que pode ocorrer no futuro se assim seguirmos.



Palavras-chave


música ambiente; afetos e sonoridades; realismo capitalista;

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