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A semana farroupilha nos anos iniciais: uma análise da abordagem docente e da (in)visibilidade dos lanceiros negros
Ismael Carlos Cruz Feijó, Daniela de Campos

Última alteração: 10-12-2025

Resumo


O tema desta pesquisa é a abordagem da Semana Farroupilha e da Guerra dos Farrapos nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com foco específico na (in)visibilidade da participação do povo negro, particularmente a história dos Lanceiros Negros. A delimitação do estudo recai sobre uma escola estadual de Caxias do Sul/RS. A contextualização problematiza a narrativa hegemônica e folclórica que cerca o evento, frequentemente reduzida à exaltação de "heróis" da elite escravocrata, silenciando o protagonismo negro e a violência da traição de Porongos. A justificativa fundamenta-se no compromisso ético da educação com uma memória histórica crítica, conforme previsto na Lei 11.645/08, e na necessidade de combater o racismo estrutural por meio de um ensino que desconstrua mitos e dignifique as lutas por liberdade. Este estudo justifica-se também pelo papel fundamental dos Anos Iniciais na construção de uma consciência histórica crítica. Os principais marcos teóricos que embasam este trabalho são a Pedagogia Histórico-Crítica (Saviani, 2021), que defende o acesso ao conhecimento científico como ferramenta de transformação social; a filosofia da história de Walter Benjamin (1996), que analisa a narrativa histórica como instrumento de dominação dos grupos vencedores; a pedagogia crítica de Paulo Freire (1987), que problematiza a educação bancária e propõe uma educação problematizadora e libertadora; os estudos sobre o silenciamento da população negra na história oficial (Flores, 2010); e a análise da construção dos mitos farroupilhas (Silva, 2010). O problema de pesquisa questiona: a forma como a Semana Farroupilha é tratada nos Anos Iniciais inclui a História do povo negro que participou da revolta? Os objetivos são: geral - analisar como a temática é trabalhada por professores, enfatizando a participação negra; e específicos - verificar as fontes de conhecimento dos docentes; identificar os personagens e tópicos abordados; e realizar uma formação continuada.
A pesquisa caracteriza-se como qualitativa e exploratória. Os procedimentos metodológicos consistem em: (1) revisão bibliográfica sistemática, já realizada, que mapeou a produção acadêmica sobre o tema, constatando uma lacuna significativa de estudos com enfoque específico no ensino e na aprendizagem desse recorte histórico nos Anos Iniciais; (2) aplicação de questionário estruturado, contendo questões abertas e fechadas, junto a seis professoras dos Anos Iniciais (uma regente de cada ano e a professora de Educação Física) da escola campo do estudo; (3) observação não participante das atividades desenvolvidas durante a Semana Farroupilha de 2025 na instituição; e (4) análise de conteúdo (Bardin, 2011) das respostas obtidas, visando identificar categorias temáticas que revelem as concepções e práticas docentes. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do IFRS.
A análise preliminar dos dados das entrevistas confirma a hipótese inicial e revela um panorama claro. A abordagem predominante é folclórica e cultural, centrada na exaltação de símbolos (comida típica, vestimenta, dança, música, chimarrão) por cinco das seis professoras. A participação negra é omitida por cinco delas, com exceção de uma professora que prioriza as "contribuições dos povos africanos e indígenas" e critica a ocultação dos Lanceiros Negros. As fontes de conhecimento declaradas são majoritariamente superficiais: recursos midiáticos (seis das seis), experiência própria como aluna (três das seis) e livros didáticos (duas das seis). Nenhuma professora citou formação continuada específica sobre o tema, e duas mencionaram o MTG/CTGs como fonte. A unanimidade entre as professoras sobre a necessidade de formação (todas a consideram "Importante") é um dado crucial. A observação da Semana Farroupilha na escola, ainda pendente, será fundamental para cruzar os dados declarados pelas docentes com suas práticas efetivas em sala de aula.
Este cenário é elucidado pela teoria. A narrativa hegemônica identificada opera a função criticada por Walter Benjamin (1996): a história contada pelos "vencedores" (a elite farroupilha) que apaga as vozes e o massacre dos "vencidos" (os Lanceiros Negros), esvaziando a data de seu potencial crítico. A prática educativa que prioriza a transmissão acrítica dessa narrativa aproxima-se do modelo de "educação bancária" denunciado por Paulo Freire (1987), onde se "deposita" nos estudantes uma memória oficial incontestável, inibindo a leitura crítica do mundo. O dado revela a insatisfação com o repertório disponível e a abertura para a superação da prática bancária, almejando uma educação problematizadora (Freire, 1987), o que legitima e confere urgência ao produto educacional proposto. A observação em campo será essencial para verificar se há consonância entre o discurso docente e a prática pedagógica efetivamente empregada durante as comemorações.
Conclui-se que há um profundo descompasso entre a produção do conhecimento histórico científico e sua apropriação pelo espaço escolar nos Anos Iniciais. A abordagem vigente, culturalista e acrítica, reforça uma memória seletiva que beneficia os grupos dominantes. Como desdobramento imediato, e atendendo à demanda expressa pelas docentes, este trabalho propõe a realização de uma formação em formato de roda de conversa e vídeo-debate. Utilizando os documentários "Nação | TVE – Massacre de Porongos" e "Manifesto Porongos", o produto visa criar um espaço dialógico para problematizar a narrativa hegemônica, resgatar as vozes silenciadas e instrumentalizar as professoras para uma prática pedagógica verdadeiramente antirracista e emancipatória, alinhada aos princípios de uma educação histórica crítica.


Palavras-chave


Semana Farroupilha; Lanceiros Negros; Formação Docente

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