Última alteração: 10-12-2025
Resumo
Introdução
Na atualidade, discussões relacionadas à qualidade da alfabetização no Brasil são frequentes e necessárias, visto que os resultados de avaliações de larga escala aplicadas nos últimos anos têm demonstrado que a realidade atual ainda está distante do previsto na Meta 5 do Plano Nacional de Educação (PNE), em vigência desde 2014. O PNE define em sua Meta 5 que todas as crianças devem ser alfabetizadas até o término do 3º ano do Ensino Fundamental, no entanto, como se observa no Painel de Monitoramento do PNE, apenas 55% dos estudantes estavam alfabetizados até o término do segundo ano em 2024.
Neste sentido, o presente estudo deriva de uma pesquisa conduzida no Mestrado Profissional em Educação Básica do IFRS, Campus Farroupilha e busca aprofundar os estudos acerca da alfabetização de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no espaço escolar, bem como as contribuições das Neurociências para a compreensão dos processos neurais envolvidos na aquisição da linguagem escrita.
A temática do projeto de pesquisa foi definida após se perceber, dentro da rede escolar no Município de Harmonia - RS, a preocupação de pais e professores relacionada à alfabetização de alunos, especialmente alunos com TEA. Em linhas gerais, o projeto de pesquisa faz um apanhado sobre a alfabetização e letramento e apresenta as contribuições das Neurociências para a compreensão dos processos neurobiológicos que medeiam a aquisição da leitura e escrita, bem como estes conhecimentos, uma vez compreendidos pelos professores, podem auxiliar os estudantes nessa apropriação.
Dessa forma, espera-se contribuir para a qualificação de práticas de alfabetização inclusivas, bem como, compreender os processos neurobiológicos fundamentais na aquisição da leitura e escrita. Por fim, este projeto pretende desenvolver um produto educacional que se constitui em uma caixa pedagógica voltada à alfabetização de estudantes com TEA.
Metodologia
Para organização desta pesquisa foi realizado um levantamento bibliográfico em Picollo (2022), que aborda o termo inclusão, capacitismo, lugar de fala e segregação da deficiência na atual sociedade, Soares (2020), que apresenta estudos aprofundados acerca da aquisição do processo de leitura e escrita, Deahene (2012), Consenza e Guerra (2011) e Crespi e Noro (2024), que apresentam estudos sobre o funcionamento cerebral, os processos neurobiológicos na aprendizagem, bem como consolidação da escrita e leitura.
Deste modo, esta pesquisa se caracteriza como qualitativa, ao passo que busca aprofundar estudos em diferentes bibliografias e análise em publicações já existentes, conforme explicita Gil (1999, p.69), “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Além disso, foi conduzido um levantamento de produções acadêmicas sobre a temática nos repositórios Scielo, Google Acadêmico e Capes, a fim de analisar produções dos últimos cinco anos em relação às contribuições das Neurociências aos processos de aprendizagem da língua escrita e leitura de alunos com TEA.
Resultados e discussões
Inicialmente, faz-se necessário abordar a diferença existente entre a língua falada e a língua escrita. Segundo autores como Soares (2020) e Cosenza e Guerra (2011) a habilidade da fala é um processo que ocorre de maneira espontânea e que tem relação com o meio em que a criança está inserida. Nesse sentido, Soares (2020 p. 34) faz referência à apropriação da fala ser um ato natural do ser humano, internalizada no convívio com os pares, já que “a fala é, no ser humano, uma capacidade inata, um instinto geneticamente programado”. Nessa mesma perspectiva, Cosenza e Guerra (2011, p. 101) afirmam que,
Falar é fácil, mas ler já é um pouco mais difícil. A linguagem escrita, exatamente por ser uma aquisição recente na história da nossa espécie, não dispõe de um aparato neurobiológico preestabelecido. Ela precisa ser ensinada, ou seja, é necessário o estabelecimento de circuitos cerebrais que a sustentem, o que se faz por meio de dedicação e exercício.[..] A aprendizagem da leitura modifica permanentemente o cérebro, fazendo com que ele reaja de forma diferente não só aos estímulos linguísticos visuais, mas também na forma como processa a própria linguagem falada.
Assim sendo, a escrita necessita ser vista de forma sistemática, com estratégias que realizem abordagem léxica e semântica de palavras, diferentemente da fala. Nesse sentido, Crespi e Noro (2024 p. 107) reiteram que,
No caso da aprendizagem da leitura e da escrita, fica evidente que para que ocorra a ligação entre neurônios que transmitam informações específicas relacionadas à interpretação e a significação de signos que representam sons, existe a necessidade de repetição de estímulos específicos relacionados às habilidades fonéticas, lexicais e ortográficas. Por esse motivo também, se justifica a afirmação de que a leitura e a escrita são processos que exigem a mediação intencional e o ensino, para que se criem condições ambientais adequadas para fomentar as alterações neurobiológicas necessárias que sustentam o aprendizado da leitura e da escrita.
Desse modo, compreendendo que a alfabetização necessita de mediação intencional e de amadurecimento de processos neurobiológicos, é necessário ressaltar que, apesar de poder haver dificuldades de aprendizagem, a capacidade de aprender atinge a todos, e que as Neurociências disponibilizam subsídios importantes para auxiliar nesse processo, conforme colabora Dehaene ( 2012, p. 250),
Ora, o cérebro de nossas crianças é uma formidável pequena máquina de aprender. Cada dia passado na escola modifica um número vertiginoso de sinapses.Preferências balançam, estratégias novas emergem, automatismos se estabelecem, redes novas se falam. [...] Cabe a cada professor experimentar com zelo e rigor a fim de identificar, dia após dia, os estímulos ótimos com os quais se alimentarão os alunos.
Nesse sentido, é importante destacar que o cérebro tem a capacidade de se modificar e se adaptar a uma nova aprendizagem, através de um processo conhecido como neuroplasticidade, que pode ser compreendida como a habilidade do cérebro de se adaptar e se modificar mediante os estímulos recebidos.
Como a neuroplasticidade é uma constante na vida humana e comum a todos os indivíduos, os estudantes com TEA podem se beneficiar de professores que compreendam esse potencial e que promovam práticas pedagógicas qualificadas, que considerem suas especificidades e contribuam com o espaço escolar inclusivo. Nesse sentido, colabora Piccolo (2022, p. 316), “somente pela Educação escolarizada as pessoas com deficiência na contemporaneidade irão adquirir o direito de serem o que quiserem. Mas não é só isso, ainda que isso não seja pouco”.
Outrossim, Magda Soares (2020) contribui de forma específica apresentando estudos sobre as fases da aquisição da leitura e escrita, assegurando que todos podem aprender a ler e escrever. A autora afirma que a melhor forma de consolidar a alfabetização, é levar o aluno a compreender a consciência fonológica para, dessa forma, se apropriar com êxito desse processo.
Da mesma forma, Dehaene (2012) compartilha desse mesmo entendimento, apresentando de modo metafórico, o processo da leitura e escrita, iniciando com olho capta os signos (letras) e o encaminha para uma caixa de letras localizada no cérebro, e a partir disso, as informações são enviadas a outros setores que identificam o som e associam palavras e significados, para posterior entendimento da palavra.
Assim sendo, um estudante com TEA independente das dificuldades apresentadas, tem a capacidade de aprender. Cabe à escola estabelecer mecanismos que estimulem e facilitem seu processo de aquisição de leitura e escrita, seja por jogos, atividades adaptadas e planejamento com intenção pedagógica, respeitando e garantindo sua individualidade, crescimento e lugar na sociedade. Nesse sentido, Piccolo (2022) aborda o lugar da pessoa com deficiência na sociedade, e colabora com a ideia de tornar disponibilizar espaços de fala, não sobre, mas com a pessoa com deficiência torna-se urgente e necessário. Assim sendo, a escola torna-se palco desse movimento e espaço que estimula e garante a voz e atuação do indivíduo na constituição da sociedade justa e crítica.
Considerações Finais
Esta pesquisa pautou-se em estudos de autores que tratam sobre a alfabetização pelo viés das Neurociências, e a partir disso, foi possível verificar que, estudantes com TEA apresentam capacidade de aprender a ler e escrever, já que mantém-se intacta a neuroplasticidade e portanto, a capacidade de aprender. No entanto, para que este processo se concretize, é necessário considerar as especificidades de cada estudante e promover estimulações que contemplem suas habilidades, explorando possibilidades diferenciadas, como o uso de jogos e dinâmicas que assegurem aprendizagem de forma lúdica, já que através da ludicidade é possível oferecer experiências pedagógicas qualificadas que auxiliem na consolidação da escrita e leitura.
Por fim, os estudos investigados indicam que promover a aproximação das Neurociências à sala de aula, não na perspectiva de impor ou sobrepor às Ciências à Educação, mas no sentido de fazer uso de saberes pautados em evidências científicas podem contribuir para a efetivação da leitura e escrita, bem como, para a inclusão e aprendizagem efetiva de todos os estudantes no espaço escolar e na sociedade.