Última alteração: 11-12-2025
Resumo
Este projeto investiga como se reconfigurou o perfil social dos concluintes do ensino superior brasileiro na última década e o que essas mudanças revelam sobre mecanismos de reprodução e democratização do acesso. Trabalhou-se com os microdados do questionário socioeconômico do ENADE, em quadros agregados e comparações descritivas, em conformidade com as salvaguardas da LGPD. A revisão bibliográfica (quinze estudos com ENADE e ENEM) converge na ideia de que as desigualdades de desempenho e de trajetórias são estruturadas por capitais econômicos e culturais, socialização escolar prévia, gênero e raça/cor, em diálogo com Bourdieu & Passeron e com o debate sobre políticas de inclusão (Ações Afirmativas, Prouni, Reuni, Fies). Em conjunto, a literatura descreve ampliação do acesso ao ensino superior com persistência de hierarquias internas entre cursos e instituições, o que justifica a comparação temporal entre 2012–2014 e 2021–2023. A comparação entre os triênios confirma a permanência do núcleo hierárquico, com reacomodações nas bordas. (i) Gênero: mantém-se e, em alguns casos, acentua-se a feminização nas áreas do cuidado e da educação (Pedagogia e Enfermagem com maioria feminina muito clara em ambos os períodos), enquanto as Engenharias seguem majoritariamente masculinas, com avanços pontuais da participação feminina após 2021. (ii) Raça/cor: persiste a sobrerrepresentação de brancos em carreiras de alto prestígio simbólico (Medicina, Direito, Relações Internacionais), ao passo que Serviço Social e parte das licenciaturas mostram maior diversidade racial, com incremento relativo de pretos e pardos no período recente. (iii) Origem escolar e capital cultural: carreiras de prestígio seguem mais associadas a trajetória em escola privada e a maior escolaridade materna; já Pedagogia e Enfermagem mantêm perfil mais popular (maior presença de egressos da escola pública e menor escolaridade materna), com leve redução das distâncias nas licenciaturas em 2021–2023. (iv) Renda familiar: a concentração das faixas mais elevadas continua em Medicina, Direito e RI, enquanto áreas de formação docente e do cuidado concentram rendas intermediárias/baixas, sem inversões de posição entre triênios. (v) Modalidade: cresce expressivamente o EaD em 2021–2023 (choque pandêmico e expansão da oferta), sobretudo em licenciaturas e cursos tecnológicos de gestão, frente a patamar bem menor em 2012–2014. À luz de Bourdieu e Passeron, o campo acadêmico expandiu o acesso, mas continua distribuindo desigualmente capitais econômicos e culturais entre cursos e instituições. O triênio 2021–2023, marcado por crise econômica e pandemia, não reverteu as hierarquias; heterogeneizou margens (licenciaturas e áreas de médio prestígio), ampliou o peso da escola pública na origem de concluintes e registrou leve diversificação racial fora do núcleo de consagração, com o EaD despontando como via recente de expansão.