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"Quando a escola ouve, a infância fala”: um estudo sobre a Pedagogia da Escuta como parâmetro metodológico para a etapa creche
Geciele Emília Walke Cardoso, Samantha Dias de Lima

Última alteração: 10-12-2025

Resumo


Este trabalho é um recorte do projeto de mestrado vinculado ao Programa de Pós-graduação em Educação Básica - IFRS Campus Farroupilha, na linha de Formação de Professores, Currículos e Práticas Pedagógicas na Educação Básica. A pesquisa tem como temática central a Pedagogia da Escuta como uma estratégia teórico-prática para visibilizar as infâncias e garantir os direitos de aprendizagem na escola infantil.  A escuta é vista como um dos seis direitos de desenvolvimento e aprendizagem previstos na Base Nacional Comum Curricular (2017). Contudo, ainda precisa avançar como uma estratégia de aprendizagem nas práticas pedagógicas. Por esse motivo, surge a questão investigativa: como a pedagogia da escuta pode ser movimentada como uma estratégia teórico-prática nas escolas de Educação Infantil - Etapa Creche, para visibilizar as infâncias e garantir os direitos de aprendizagem das crianças?. Os objetivos são analisar como as práticas de escuta são desenvolvidas no cotidiano das escolas de Educação Infantil; mapear de que forma contribuem para a visibilização dessas infâncias; e propor estratégias pedagógicas que potencializam a escuta das crianças como forma de garantir seus direitos de aprendizagem  fortalecendo a sua participação na vida escolar. A escolha do tema se deu pela inquietação enquanto educadora da Educação Infantil na etapa creche (0 a 3 anos) acerca de como a professora pode assegurar uma educação participativa para com as crianças dessa etapa. A Pedagogia da Escuta, idealizada pelo estudioso italiano Loris Malaguzzi, é uma abordagem onde o acolhimento e a escuta atenta das crianças têm profunda importância no processo educativo, reconhecendo-os como protagonistas de seus processos de aprendizagem. Nessa perspectiva, a escuta é entendida como uma abertura sensível ao outro, como postura ética que reconhece a criança como interlocutora e produtora de cultura. Dessa forma, em uma visão escolar, faz com que o professor permita que o estudante possa explorar o mundo ao seu redor, expressar seus pensamentos e emoções de diversas formas, construindo, assim, seu próprio conhecimento e desenvolvendo suas habilidades sociais, emocionais e cognitivas de forma completa. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, que tem como operacionalização na primeira fase a revisão sistemática de literatura (RSL), que tem como propósito mapear e analisar estudos (teses e dissertações). Na segunda etapa, de caráter participativo (de)formativo, será um webinário, que busca compreender, de forma aprofundada, os significados atribuídos às práticas de escuta no contexto cotidiano da Educação Infantil, através de encontros formativos online com professores da Etapa Creche.Streck (2016, p. 538) define que metodologias participativas são as quais os sujeitos da pesquisa são compreendidos como co-produtores de conhecimento, na medida em que contribuem ativamente para a construção e ressignificação dos dados e sentidos que emergem ao longo do processo investigativo. É importante destacar, também, que a escolha pela pesquisa participativa se deu pela sua afinidade com a temática desta pesquisa e a forma pela qual se dará a produção dos dados. Oliveira-Formosinho (2007, p. 18) afirma em seus estudos que a pedagogia da participação “centra-se nos atores que constroem o conhecimento para que participem progressivamente, através do processo educativo, da(s) culturas que o constituem como seres sócio-histórico-culturais”.O conceito (de)formação, descrito pelas autoras Fabris e Lima (2023) que sustenta essa abordagem metodológica, apresenta múltiplos sentidos. Por um lado, remete à criação de novos conceitos e à ressignificação de práticas educativas; por outro, implica a desconstrução crítica de fundamentos já apropriados, permitindo o deslocamento de perspectivas e a reconstrução de saberes. Sendo assim, a pesquisa não apenas produz conhecimento, mas também instaura processos formativos e transformadores.A produção de dados, neste estudo, será realizada por meio da execução do produto educacional definido: um webinário dividido em três encontros virtuais, de abrangência nacional, com a temática da Pedagogia da Escuta. Essa escolha metodológica está em consonância com os pressupostos da pesquisa (de)formação, na medida em que integra, no mesmo movimento, processos de investigação e de formação docente. O webinário, mais do que um espaço de reconstrução de conteúdos, será compreendido como um dispositivo formativo e investigativo, capaz de promover diálogos, tensionamentos e ressignificações em torno da escuta na Educação Infantil.No decorrer dos encontros, a produção de dados se dará a partir das interações entre os participantes, tanto nas discussões em tempo real (falas, perguntas, reflexões) quanto nos registros escritos disponibilizados nas ferramentas de chat. Além disso, instrumentos complementares poderão ser utilizados, como questionários breves aplicados antes e depois dos encontros, com o objetivo de captar expectativas iniciais e percepções de aprendizagem ao final da experiência. A partir disso, será registrada a frequência do/da professor/professora participante, assim como suas perspectivas sobre a temática abordada. Isso enriquecerá a pesquisa além de proporcionar um momento de reflexão póstumo ao encontro, tanto para os professores, quanto para a pesquisadora.A sistematização desses diferentes materiais será conduzida sob uma perspectiva interpretativa, não visando generalizações, mas a compreensão dos sentidos e significados atribuídos pelos participantes à Pedagogia da Escuta. Nessa direção, o tratamento dos dados buscará identificar convergências, divergências e tensões, bem como evidenciar as potencialidades e os limites que emergem quando se propõe a escuta como eixo formativo e investigativo. Assim, o webnário configura-se como espaço-tempo em que a escuta é, simultaneamente, tema de reflexão, prática formativa e método de pesquisa. Como resultados parciais a RSL destaca que a Pedagogia da Escuta, os Direitos de Aprendizagem e o Protagonismo Infantil constituem-se como eixos interligados que reposicionam a criança como sujeito de direitos, histórico e social, cuja voz deve orientar a prática pedagógica. Os trabalhos convergem na defesa de que a escuta não é apenas técnica, mas um princípio ético e político que atravessa o currículo, o planejamento e a formação docente. Em síntese, a escuta sensível, a participação e o brincar aparecem como fundamentos para uma educação democrática, capaz de garantir experiências significativas e emancipadoras na infância. Para a análise desses estudos, além das leituras minuciosas dos quatorze estudos selecionados para compor esta RSL, foi possível identificar recorrências de enfoques teóricos e metodológicos, a partir dos quais foi possível justificar a criação de três categorias temáticas principais, são elas: “Escuta como fundamento ético e político”, “Direitos de aprendizagem e BNCC” e “Protagonismo e participação infantil”. A definição dessas categorias visou agrupar os trabalhos de acordo com os aspectos centrais de suas investigações, respeitando os critérios de similaridade de objetivos, perspectivas conceituais e aportes práticos. A primeira categoria, denominada “Escuta como fundamento ético e político”, reúne estudos que destacam a escuta sensível, atenta e respeitosa das crianças como elemento constitutivo das práticas pedagógicas na Educação Infantil. Dentre as pesquisas analisadas, permitiu-se afirmar que a escuta da criança na Educação Infantil é um campo multifacetado, em construção, que envolve dimensões metodológicas, éticas e políticas. A escuta, portanto, não é acessório, mas fundamento para repensar a Educação Infantil em sua integralidade. A segunda categoria, “Direitos de aprendizagem e BNCC”, agrega estudos cujo foco principal é a implementação dos direitos de aprendizagem previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a análise das políticas públicas que orientam a Educação Infantil no Brasil. Em síntese, esse recorte das pesquisas realizadas mostra que currículo, direitos de aprendizagem e pedagogias da infância constituem um campo em disputa, atravessado por normativas, práticas e interpretações. Se, por um lado, documentos como a BNCC oferecem orientações, por outro, pesquisadores e professoras tensionam suas imposições, reivindicando espaço para a diversidade, a escuta e a participação infantil. Esse movimento revela que o currículo na Educação Infantil está, ainda, em constante construção. Por fim, a terceira categoria, intitulada “Protagonismo e participação infantil”, abrange estudos que priorizam a análise do papel ativo e participativo das crianças na construção dos processos educativos e na vivência de experiências significativas no contexto escolar. Por conclusão, para investigar a educação infantil, é preciso ir além das fronteiras disciplinares e compreender a interconexão entre conceitos como protagonismo, participação e brincar. Esses temas, embora distintos, apontam para uma única direção: a necessidade de um olhar renovado para a infância, que a reconheça em sua potência e em seu direito de ser e se expressar. A pesquisa de mestrado, ainda está em desenvolvimento e tem como próximos passos, a qualificação da proposta de produto educacional, e a formação de professores interessados na temática. Como produto final, a pesquisa irá elaborar um Webinário (seminário online) sobre a Pedagogia da Escuta, destacando, ao longo de três encontros, a linha do tempo da Pedagogia da Escuta, os diferentes lugares da escuta e a constituição de sujeito a partir dela, além de ressignificar práticas operadas pelos docentes participantes.

Palavras-chave


Pedagogia da Escuta; Prática Pedagógica; Educação Infantil.

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