Última alteração: 08-12-2025
Resumo
Este estudo aprofunda a investigação iniciada em 2022 sobre violência e processo civilizador no Rio Grande do Sul, combinando sociologia histórica e cliometria para reconstruir séries de longa duração (meados do século XVIII ao XX) e testá-las à luz da hipótese eliasiana: a pacificação das relações interpessoais acompanha a consolidação do monopólio estatal da força e o adensamento das interdependências sociais. A lacuna regional de séries históricas sobre este tema é enfrentada por meio da integração de registros paroquiais e civis digitalizados (FamilySearch) selecionados por amostragem, harmonização toponímica e demográfica e estimativas populacionais comparáveis entre localidades historicamente relevantes (Viamão, Rio Pardo, Rio Grande, Mostardas, Aldeia dos Anjos/Gravataí e Santo Antônio da Patrulha). Para lidar com incertezas documentais, os óbitos violentos foram tabulados e classificados em três critérios (restritivo, intermediário e amplo), com checagens de sensibilidade e modelagens de tendência (regressão quadrática com IC de 90%) a partir das taxas de homicídios por 100 mil habitantes estimadas para cada ano na amostra.. A série foi estendida com dados oficiais pós-1979 (DATASUS). Os resultados convergem para um declínio secular das taxas de homicídio desde o período colonial, com oscilações locais e episódios de recrudescimento, mas sem inversão do sentido de longo prazo. Importa sublinhar que se trabalhou sob viés sistemático de sub-registro: muitos assentos não informam a causa ou a trazem de forma ambígua, e há viés de classificação por parte dos escreventes. Assim, as taxas estimadas tendem a ser inferiores à realidade (conservadoras). Mesmo sob viés de sub-registro e possíveis ambiguidades de classificação nos assentos, o padrão descendente se mostra robusto aos diferentes critérios. O perfil das vítimas indica predominância masculina e maior exposição de homens jovens; as marcações de cor/raça devem ser lidas com cautela, dada a histórica invisibilização e o “branqueamento” nos registros. Interpretados com a teoria de Norbert Elias, os achados são compatíveis com a associação entre expansão de capacidades estatais, elevação de autocontroles sociais e redução da letalidade interpessoal no longo prazo. Como contribuição, o estudo oferece uma base replicável para o RS, integra métodos e fontes antes dispersas e fornece evidências históricas que cobrem uma lacuna empírica para interpretar flutuações recentes na violência letal e qualificar políticas de segurança e justiça.