Última alteração: 10-12-2025
Resumo
INTRODUÇÃO
Altos índices de endividamento e inadimplência marcam o cenário econômico contemporâneo, sendo que a maioria dos brasileiros admite compreender pouco ou nada sobre Educação Financeira, embora reconheça sua importância (VEJA, 2025).
Essa problemática, presente no cotidiano das famílias e, por consequência, na vida de jovens, que ingressam cada vez mais cedo no mundo do consumo e do crédito, mostra-se complexa e coloca, na ordem da prioridade, a construção de estratégias que auxiliem a formação de cidadãos mais conscientes, críticos e preparados para lidar com as complexidades econômicas atuais.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, consumidores de 27 cidades acumularam, somente no mês de abril de 2025, um endividamento superior a R$ 1,98 bilhão (SERASA, 2025). Esse montante engloba dívidas em instituições bancárias, estabelecimentos comerciais e concessionárias de serviços públicos (Jornal do Comércio, 2025). Embora entenda que essas questões reflitam problemas sociais que extrapolam o campo educacional, esses números reforçam a importância de abordar a Educação Financeira desde os primeiros anos da formação escolar.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) prevê a abordagem da Educação Financeira como tema transversal desde os anos iniciais, com maior ênfase no componente curricular de Matemática. No entanto, pesquisas apontam que o ensino da Matemática Financeira, tópico relacionado, ainda é tratado de forma superficial, frequentemente restrito a cálculos de juros simples e compostos sem articulação com situações reais (Duda, 2014). Essa abordagem tende a reduzir o potencial de aprendizagem e deixa de explorar a dimensão social e cidadã associada ao tema (Marchetti, 2020).
Pesquisas internacionais, como as de Moffitt e McKinney (2010) e Smith e Gibbs (2019), demonstram que o uso de simuladores financeiros melhora significativamente a compreensão de conceitos financeiros e aumenta o interesse dos estudantes pelo tema. No Brasil, ainda que experiências semelhantes sejam realizadas em cursos técnicos específicos e cursos superiores, o uso sistemático de simuladores financeiros no Ensino Médio é incipiente.
O trabalho de Leite (2018), por exemplo, propõe a criação de um simulador financeiro escolar, usando linguagem de programação para estudantes do 1º ano do Ensino Médio. Os resultados indicam que o uso do simulador promove a produção de significados sobre a relação entre dinheiro e tempo, tornando conceitos financeiros mais acessíveis e contextualizados. Leite destaca que
[...] ao se utilizarem do Simulador Financeiro Educacional, os participantes revelaram ser uma tecnologia muito mais atrativa, de manuseio intuitivo, que permite uma melhor visão do fenômeno em análise por exibir todos os itens que compõem o processo de simulação de forma clara e interativa. Além de poder acompanhar todo o processo simulatório, apresentando as operações geradoras de montantes do primeiro ao último mês do período de investimento (Leite, 2018, p. 128).
Na continuidade de pesquisas como essas, esta investigação se propõe a investigar a utilização de simuladores de investimentos como ferramentas pedagógicas no Ensino Médio. Abordaremos, especificamente, o Investopedia Stock Market Simulator, por ser uma plataforma gratuita e on-line que simula negociações no mercado de ações com base em dados reais, mas sem risco financeiro.
Este texto integra uma pesquisa maior, desenvolvida junto ao Mestrado em Educação Básica do IFRS - Campus Farroupilha, que busca descrever e analisar como estudantes de Ensino Médio compreendem conceitos relacionados à Educação Financeira e como interagem com eles em plataformas digitais.
O problema da pesquisa se materializa na questão: Como simuladores financeiros podem ser integrados ao ensino de conceitos matemáticos que envolvem a Educação Financeira? Com isso, propomos a construção de uma sequência didática com o uso de simuladores de investimentos on-line e investigamos de que maneira sua utilização pode contribuir para a construção de conceitos de Educação Financeira no Ensino Médio, que auxiliem em escolhas mais conscientes e responsáveis em relação às finanças.
ESCOLHAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS
A pesquisa se estrutura a partir de uma abordagem qualitativa, alinhada à Revisão Integrativa de Literatura (Whittemore e Knafl, 2005) sobre o ensino de Educação Financeira na Educação Básica com o uso de simuladores financeiros. Nos inspiramos nas pesquisas qualitativas porque elas permitem capturar diferentes formas de expressão, que comunicam os sentidos atribuídos pelas pessoas às suas vivências, não limitando-se a realização de entrevistas e observações, mas incorporando tecnologias e suportes diversos, que permitem analisar contextos educacionais dinâmicos, simbólicos e influenciados por múltiplas variáveis (Bauer; Gaskell, 2002).
O material empírico, após a aprovação da pesquisa junto ao Comitê de Ética do IFRS, será produzido com estudantes de 2º e 3º anos do Ensino Médio, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Bento Gonçalves, por meio de questionários on-line e analisado segundo as teorizações em que esta pesquisa se inscreve. Os resultados serão enviados aos alunos que desejarem, por meio de um relatório digital, que será elaborado de forma clara e acessível, contendo o resumo da pesquisa, os principais achados, os gráficos e as conclusões, proporcionando uma leitura informativa. Dessa forma, busca-se garantir a todos que desejarem o acesso aos resultados.
Ao investigar percepções sobre consumo, crédito e investimentos, buscamos, então, compreender como os estudantes constroem significados sobre Educação Financeira e como se sentem em relação ao uso de simuladores financeiros, considerando suas aprendizagens, dificuldades e reflexões. A partir disso, será construída uma sequência didática utilizando o Investopedia Stock Market Simulator para uso em turmas de Ensino Médio.
O SIMULADOR FINANCEIRO DO INVESTOPEDIA: ALGUMAS FUNCIONALIDADES
O simulador do Investopedia Stock Market Simulator é um ambiente virtual que permite aos usuários realizar operações de compra e venda de ações, criar portfólios, acompanhar cotações de mercado e analisar gráficos e relatórios de desempenho. Os participantes recebem um montante fictício inicial e podem negociar ativos como se estivessem no mercado real, com cotações atualizadas e com a visualização de impactos, direto de notícias econômicas.
A plataforma oferece diferentes abas e funcionalidades, a saber: (1) Portfólio: visão geral dos investimentos, com preços de compra, variação de mercado e lucros ou perdas acumulados. (2) Trade: espaço para realizar operações de compra, venda ou (short selling), escolhendo o tipo de ordem e simulando estratégias. (3) Research: consulta de informações detalhadas sobre ativos, empresas, gráficos e dados financeiros. (4) Rankings: comparação do desempenho entre participantes, estimulando o aspecto competitivo e colaborativo da aprendizagem. (5) News: atualização em tempo real sobre fatos que afetam o mercado, aproximando os estudantes da dinâmica real dos investimentos. (6) My Games: organização de jogos privados ou públicos, que possibilita criar turmas exclusivas em contextos escolares.
Esse conjunto de funcionalidades possibilita que os estudantes se envolvam, de forma lúdica e interativa, com conceitos como risco, retorno, diversificação de investimentos, impacto das notícias econômicas e volatilidade do mercado.
O uso do simulador do Investopedia no Ensino Médio possibilita que os estudantes trabalhem com porcentagens, variação de preços, juros compostos e análise de dados e outros assuntos relacionados à Educação Financeira, considerando situações concretas. Isso porque, ao invés de lidar apenas com fórmulas descontextualizadas, os estudantes podem observar, por exemplo, como uma taxa de juros impacta em um investimento ao longo do tempo, ou como algumas decisões de compra e venda influenciam diretamente no saldo de uma carteira.
Em relação a possíveis benefícios, entendemos que o uso de simuladores de investimentos contribui para o desenvolvimento de competências socioemocionais e críticas, como tomada de decisão, avaliação de riscos e planejamento financeiro, pois o ambiente gamificado do simulador, ao permitir competições entre estudantes, reforça o engajamento e a motivação, aproximando-se da cultura digital dos jovens.
Além disso, espera-se potencializar, também, outras dimensões: (1) Conceitual – melhor compreensão de juros compostos, risco, retorno, inflação e renda variável; (2) Aplicada – desenvolvimento de habilidades de análise, comparação de investimentos e planejamento; (3) Atitudinal – estímulo a comportamentos mais críticos, conscientes e responsáveis no uso do dinheiro.
Ainda, entendemos que há um potencial impacto na formação de professores, que passam a contar com uma ferramenta digital contextualizada para trabalhar tópicos de Matemática Financeira. Com isso, a pesquisa pode contribuir, também, para a formação continuada dos professores e para a disseminação da Educação Financeira em ambientes educacionais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa aposta no uso de ferramentas pedagógicas digitais ao inserir o simulador do Investopedia no ensino de Educação Financeira no Ensino Médio. Trata-se de uma plataforma acessível, gratuita e com grande potencial de engajamento, capaz de aproximar os estudantes de diferentes realidades econômicas. Com ela, é possível auxiliar no desenvolvimento de atitudes críticas e cidadãs, preparando-os para lidar com decisões financeiras em um mundo cada vez mais complexo, que exige preparação para enfrentar os desafios do consumo, do crédito e do planejamento financeiro na vida adulta.
Ao articular Educação Financeira e tecnologias digitais, a pesquisa fomenta a formação de sujeitos capazes de compreender o mundo econômico e de atuar nele, com os recursos que se apresentam como possíveis.