Última alteração: 08-12-2025
Resumo
O presente trabalho é um recorte da pesquisa realizada no projeto “A produção de curtas-metragens no audiovisual latino-americano contemporâneo sob a perspectiva decolonial” (FAPERGS/IFRS), vinculado ao grupo de pesquisa Audiovisual Latino-Americano no Século XXI - OfCine (CNPq/IFRS). Na situação da globalização cultural contemporânea, a indústria midiática se destaca como veículo importante na constituição de imaginários e na disseminação de ideologias. Com o objetivo de investigar a produção de curtas-metragens no território da América Latina, assim como suas influências culturais e políticas, buscou-se caracterizar, a partir da análise do curta metragem “Nem mentira, nem verdade”, a competência da indústria cinematográfica em transmitir discursos de grande inserção social e alcance internacional. Dirigido pelo diretor Jairo Ferreira, o qual é reconhecido no movimento do cinema marginal, o curta-metragem de 1979 foi selecionado para identificar, por meio da análise do conteúdo presente, elementos que caracterizam uma influência hegemônica exercida pela grande indústria mundial em um cinema caracterizado pelo subdesenvolvimento. A partir de uma caracterização dos processos hegemônicos da cultura e informação, que tem como marco o manifesto “Hacia un Tercer Cine” (1969) de Solanas e Getino e influenciadas pelas teorias de Frantz Fanon, foi realizada uma discussão acerca de uma perspectiva contra-hegemônica do audiovisual latino-americano. Reconhecer o cinema como uma ferramenta política poderosa se tornou essencial no momento em que deixou de ser arte e passou a ser indústria. Tratar o cinema como indústria, torna-o um objeto de consumo, propenso a sofrer manipulações para que se encaixe nos ideais propostos pelas potências hegemônicas mundiais. A dominação de países subdesenvolvidos não ocorre somente no cinema como economia, mas adequa seus pensamentos a seu modo de pensar e agir, influenciando, assim, os preceitos morais, estéticos e políticos das regiões dominadas. A partir da análise empreendida, se pode concluir que o fenômeno cinematográfico excede o propósito do entretenimento ao estabelecer-se como uma instância representada por disputas ideológicas. O cinema de resistência, objeto deste trabalho, é onde encontra-se o potencial manifestado enquanto expressão cultural soberana. Revela-se, por fim, que a valorização e a difusão de curtas-metragens são uma prática de suma importância para a oposição do neocolonialismo e o estabelecimento de um audiovisual primorosamente latino-americano.